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Conhecimento Médio e Eleição Divina

Tradução: Samuel C. Santos

Questão 1: Tenho estudado o conceito de conhecimento médio e gostaria de saber o seu ponto de vista sobre o seguinte:

1) Existem pessoas que Deus não pode predestinar à salvação porque elas livremente rejeitariam a Cristo não importam quais circunstâncias Deus as jogue?

2) Existem pessoas que não responderiam a um apelo pessoal mas que responderiam a um encontro com Cristo na estrada de Damasco?

3) Deus negaria passivamente um encontro com Cristo na estrada de Damasco à pessoa da Q2 se Deus não a houvesse escolhido?

Agradecido.
Michael.

Questão 2: Dr. Craig,

Eu aprecio esta oportunidade de fazer uma pergunta a um grande pensador como você. Estou fascinado pelo debate em torno do conhecimento médio, mas superficialmente parece que ele pode ser muito simplista. Por exemplo, digamos que entre os mundos possíveis exitam dois sob as seguintes condições:

Mundo Possível #1:

1. Existem três pessoas (A, B e C).
2. A Pessoa A encontra uma Bíblia e é salva.
3. A pessoa A compartilha o evangelho com a pessoa B que é então salva.
4. A Pessoa C nunca é salva porque mesmo que ela escute o evangelho, colocou na cabeça que sempre discordaria com qualquer coisa que B acredita. (Eu conheço pessoas assim!)

Mundo Possível #2:

1. Existem três pessoas (A, B e C).
2. A Pessoa A encontra uma Bíblia e é salva.
3. A pessoa A compartilha o evangelho com a pessoa C que é então salva.
4. A Pessoa B nunca é salva porque mesmo que ela escute o evangelho, colocou na cabeça que sempre discordaria com qualquer coisa que C acredita.

Pergunta: Que mundo Deus preferiria? Aquele em que as pessoas A e B são salvas (Mundo #1) ou aquele no qual as pessoas A e C são salvas (Mundo #2)? Como muitos mundos possíveis de contingências existem, parece que Deus pode ter de fazer escolhas onde pessoas potencialmente salvas nunca seriam salvas.

Obrigado,
Bruce.


Resposta do Dr. Craig:

É importante ter sempre em mente que Luis de Molina desenvolveu sua doutrina do conhecimento divino em resposta às visões fortemente predeterminacionistas dos Reformadores Protestantes como Lutero e Calvino. Ele quis enunciar uma doutrina extremamente forte da soberania divina, satisfazendo para tanto as demandas dos Reformadores, tendo a vantagem de afirmar também a realidade do livre arbítrio humano. Pessoas que não gostam das afirmações fortes dos reformadores sobre a soberania divina estão portanto inclinados a desgostar também das visões de Molina. Porque Molina, assim como os Reformadores, tomou com seriedade, gostassem disso ou não, a afirmação bíblica sobre a soberania divina acima dos negócios dos homens.

Bruce, tomemos primeiro a sua questão, e assumamos que esses não são apenas mundos possíveis, mas mundos que são viáveis para Deus de criar (Sobre a diferença veja a Questão #138). Além disso, pelo bem do argumento, suponhamos que esses sejam os únicos mundos habitados por apenas A, B e C que são viáveis para Deus. Num caso como esse, cabe à liberdade e soberania de Deus escolher qual mundo preferir. Tudo o mais sendo igual (não sabemos como é o restante desses mundos), esses dois mundos parecem exatamente os mesmos em valor, e portanto eu não posso ver qualquer razão para a preferência de Deus sobre um mundo em vez do outro. Parece ser uma escolha como aquela descrita no caso clássico do asno de Buridan, o infeliz animal que foi pego à mesma distância entre dois pacotes igualmente apetitosos de feno. O debate foi sobre se o asno, em faltando-lhe o livre-arbítrio, iria morrer de fome, não tendo ímpeto para escolher um ao invés do outro. Um ser humano nunca cairia numa armadilha como essa, já que é da própria natureza do livre arbítrio fazer escolhas entre alternativas igualmente boas. Então parece-me que Deus poderia escolher arbitrariamente entre esses dois mundos (embora existam outras incontáveis opiniões).

Suponha que Deus escolha fazer surgir o mundo #2. Então B está condenado, mesmo que ele tivesse sido salvo se Deus tivesse escolhido criar, pelo contrário, o mundo #1. Isso parece deixá-lo desconfortável, Bruce. Se sim, então o que você precisa manter em mente é que em qualquer mundo, Deus deseja a salvação de toda as pessoas e provê graça suficiente para a salvação delas. O mundo de A, B e C que Deus realmente prefere criar é aquele em que A, B e C todos abraçam a graça de Deus e encontram a salvação. Infelizmente, ex hypothesi, esse mundo, embora possível, não é viável para Deus de criar. Uma das três pessoas irá perversamente rejeitar a graça salvadora de Deus e separar-se dEle eternamente.
Então, mesmo embora a soberania de Deus escolha qual mundo criar, a decisão é das pessoas daquele mundo se serão ou não salvas. Um Molinista Francês colocou esse paradoxo muito eficientemente:

Cabe a Deus decidir se eu me encontro num mundo no qual sou predestinado; Mas cabe a mim decidir se eu sou predestinado no mundo em que me encontro.

Pense muito e cuidadosamente sobre isso. Contanto que a segunda cláusula seja verdadeira, Deus não pode ser culpado pela condenação de ninguém.

Agora, nós estamos restringindo artificialmente as opções de Deus pelo bem do argumento. Portanto, não segue do seu experimento mental que Deus tem de “fazer escolhas onde pessoas potencialmente salvas nunca são salvas”. Porque talvez Deus tenha escolhido realizar um mundo no qual os condenados são exclusivamente pessoas que teriam rejeitado a graça de Deus em todo mundo viável para Deus no qual elas existem. Nesse caso, não é verdade que Deus criou quaisquer pessoas que são, como você colocou, “potencialmente salvas.” (É claro, todas as pessoas são potencialmente salvas já que existem mundos possíveis nos quais aquelas pessoas são livremente salvas; mas tais mundos podem não ser viáveis para Deus). Talvez todos os réprobos são indivíduos trans-mundialmente condenados pelo seu próprio livre-arbítrio. Isso é, obviamente, pura especulação, mas mostra que nós não deveríamos assumir assim tão precipitadamente que existem pessoas que são condenadas mas que seriam salvas se algum outro mundo viável fosse o real.

Isso nos trás à sua questão, Michael. A resposta curta a todas elas é, “Nós não sabemos.” (1), como já vimos, é certamente possível; de fato, talvez todos os réprobos sejam assim. Novamente, talvez existam pessoas como aquelas descritas em (2). Tome, por exemplo, alguém que é salvo lendo a Escritura e tornando-se cônscio da convicção do Espírito Santo. Talvez ele também tivesse sido salvo se tivesse tido uma experiência como a do apóstolo Paulo na Estrada de Damasco; mas ele não teria respondido a um apelo pessoal. Não consigo ver qualquer razão para pensar que não existam pessoas assim.

Com respeito à (3), sua pergunta é um pouco enganadora: Numa visão molinista, o problema não é que Deus não tenha escolhido essa pessoa, mas que essa pessoa não O escolheu. De acordo com a visão de Molina, Deus oferece graça suficiente para a salvação de todo ser humano, mas a Sua graça é extrinsecamente eficaz, não intrinsecamente. Porque ela requer a livre resposta da parte da pessoa para que seja eficaz em salvá-la. O que Deus realmente faz é escolher um mundo no qual aquela pessoa livremente responde à salvação de Deus ou livremente a rejeita. Então o que eu penso que você realmente está perguntando é isso: Existem pessoas que são condenadas porque elas livremente rejeitam à graça de Deus mas que teriam sido salvas livremente num mundo viável em que elas estivessem em outras circunstâncias? E a resposta para essa pergunta é, como venho dizendo, “Nós não sabemos.” Podemos muito bem imaginar por que Deus não criaria um mundo no qual essas pessoas se encontrassem em outras circunstâncias: Talvez, em um mundo assim, incontáveis outras pessoas teriam sido perdidas, de tal forma que esse mundo tem desvantagens predominantes. Por outro lado, talvez, como sugerido acima, todos os réprobos são trans-mundialmente condenáveis, de forma que ninguém poderia dizer a Deus no dia do julgamento: “Se você tivesse me criado em outras circunstâncias, então eu teria escolhido livremente ser salvo!”.

A doutrina do conhecimento médio não toma uma posição específica nessa espécie de questões, mas pode ser empregada com criatividade para elaborar várias opções.

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