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A Diferença entre Mundos Possíveis e Mundos Viáveis

Tradução: Samuel C. Santos

Olá, Dr. Craig

Ouvi recentemente ao seu debate com Dayton: “O Mal refuta Deus?”. Embora eu tenha uma clara compreensão de que Deus não pode fazer o que é intrinsecamente (ou logicamente) impossível (i. e., criar um mundo no qual Ele força as pessoas a escolherem livremente o bem ou o mal), ainda não está claro pra mim o que você quer dizer com sua afirmação de que não seria viável para Deus criar um mundo no qual o mal não existisse, mesmo que fosse logicamente possível para Ele criá-lo. Quando tento entender essas situações, elas sempre parecem se reduzir a impossibilidades intrinsecas. Por favor, explique e ilustre o que você quer dizer por Deus permitindo aquilo que é mal e evitável e ainda assim inviável para Deus de evitar.

Martin


Resposta do Dr. Craig:

A distinção entre mundos possíveis e viáveis está no coração da doutrina do Conhecimento Médio e pode ter muitas implicações teológicas importantes, como aquelas que você apontou acima. A distinção terminológica foi pela primeira vez traçada pelo filósofo Thomas Flint, mas a distinção conceitual é inerente à teoria de Luis de Molina do conhecimento médio formulada no século dezesseis.

De acordo com Molina, logicamente antes ao decreto divino de criar um mundo, Deus possui não apenas conhecimento de tudo que poderia acontecer (Seu conhecimento natural) mas também de tudo que “iria” acontecer contingentemente em qualquer conjunto apropriadamente especificado de circunstâncias (seu conhecimento médio). O conhecimento natural de Deus é Seu conhecimento de todas as verdades necessárias. Por meio disso Deus conhece a gama completa de mundos possíveis, ou como você colocou, mundos que são intrinsecamente possíveis. Ele sabe, por exemplo, que em algum mundo possível Pedro livremente nega a Cristo três vezes e que em outro mundo possível Pedro afirma a Cristo livremente sob as mesmas circunstâncias, pois ambos são possíveis.

O conhecimento médio de Deus é Seu conhecimento de todas as proposições condicionais contingentemente verdadeiras no modo subjuntivo, incluindo proposições sobre as ações humanas livres. Por exemplo, logicamente antes ao Seu decreto divino, Deus sabia que se Pedro estivesse nas circunstâncias C, ele livremente negaria a Cristo três vezes. Tais condicionais subjuntivas são frequentemente chamadas de contrafactuais. Esses contrafactuais servem para delimitar a gama de mundos possíveis para mundos que são viáveis para Deus de criar. Por exemplo, existe um mundo intrinsecamente possível no qual Pedro livremente afirma a Cristo em precisamente as mesmas circunstâncias nas quais ele de fato o negaria; mas dada a verdade contrafactual de que se Pedro estivesse em precisamente aquelas circunstâncias ele livremente negaria a Cristo, então o mundo possível no qual Pedro livremente afirma a Cristo naquelas circunstâncias não é viável para Deus. Deus poderia forçar Pedro a afirmar a Cristo naquelas circunstâncias, mas então sua confissão não seria livre. Por meio do seu conhecimento médio, Deus sabe qual é o subconjunto próprio de mundos possíveis que são viáveis a Ele, dados os contrafactuais que são verdadeiros.

Deus então decreta criar certas criaturas livres em certas circunstâncias e, portanto, com base no Seu conhecimento médio e Seu conhecimento do próprio decreto, Deus tem presciência de tudo que irá acontecer (seu conhecimento livre). Dessa forma, Ele sabe, simplesmente com base em Seus próprios estados internos e sem qualquer necessidade de qualquer tipo de percepção do mundo externo, que Pedro livremente negaria a Cristo três vezes.

Portanto no esquema de Molina, nós temos a seguinte ordem lógica:

Momento 1: . . . O O O O O O . . .
Conhecimento Natural: Deus conhece o conjunto de mundos possíveis

Momento 2: . . . O O O . . .
Conhecimento Médio: Deus conhece o conjunto de mundos viáveis
__________________________________________________________
Decreto divino criativo
__________________________________________________________
Momento 3: O
Conhecimento Livre: Deus conhece o mundo real

Então existem mundos que são intrinsecamente possíveis mas para os quais Deus, dados os contrafactuais que acontecem de serem verdadeiros, não é capaz de criar e são portanto, de acordo com a terminologia de Flint, inviáveis para Deus. Note que porque os contrafactuais de criaturais livres são contingentemente verdadeiros, quais mundos são viáveis ou não para Deus também é uma questão contingente. Tudo depende de como as criaturas iriam livremente se comportar nas várias circunstâncias, que estão debaixo do controle de Deus.

Alvin Plantinga foi o primeiro filósofo contemporâneo a aplicar esse esquema ao problema do mal. Em resposta à reivindicação de J. L. Mackie de que desde que o mundo no qual todas as pessoas sempre escolhem fazer a coisa moralmente certa é intrinsecamente possível, um Deus onipotente deveria ser capaz de criá-lo, Plantinga indicou que até onde sabemos um mundo assim pode não ser viável para Deus. De fato, até onde sabemos, todos os mundos que são viáveis para Deus e que contêm tanto bem como o mundo real também contêm tanto mal. Portanto, embora um mundo com tanto bem como o mundo real mas com menos ou nenhum mal nele possa ser intrinsecamente possível, pode não estar dentro dos poderes de Deus criar um mundo assim. Então, Deus não pode ser acusado por não ter criado tal mundo. O ateu que promove o problema do mal teria de mostrar que mundos com tanto bem mas menos mal são viáveis para Deus, cuja prova está abaixo dos poderes de qualquer um; é mera especulação. Portanto, o ateu falhou em pagar o seu ônus da prova.

Em meu próprio trabalho tenho tentado explorar a distinção entre mundos possíveis e viáveis lidando com questões tais como perseverança dos santos, inspiração bíblica e particularismo Cristão (veja Scholarly Articles: Omniscience; Christian Particularism).

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