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Sobre a Arte de Debater

Tradução: Eliel Vieira

Questão 1: Caro Dr. Craig,

Eu tenho sido bastante inspirado pelo seu trabalho. Atualmente eu estou concluindo meu bacharelado em Teologia pela Southeastern University. Eu adoro assistir aos seus debates, ouvir suas palestras, etc.

Minha questão a você é simples. Fiz uma pesquisa e li as criticas dos ateus sobre os pontos que você levanta em seus debates. Muitos deles dizem que você não é apenas muito inteligente e bem preparado em seu campo, mas que você é um debatedor fantástico por causa de toda a experiência que você acumulou em debates.

Eles dizem que a razão de você se sair melhor na maioria dos debates que participa não é porque os fatos que você apresenta estão corretos, mas apenas porque você é um grande discursor e debatedor. Eles parecem acreditar que se houvesse um ateu proeminente com igual experiência e estratégia em debates como você, então eles estariam “vencendo a batalha”.

Desta forma minha questão se divide em três pontos.

1) Você se preocupa e lê estas críticas e ataques?

2) Qual é o motivo dos ateus acreditarem que os fatos que você apresenta (por exemplo, o ajuste fino do universo) não são fatos de fato e contradizem ciência, filosofia, etc.?

3) Você acha que eles criticam sua utilização destes fatos porque estes fatos realmente são controversos, com mais de um ponto de vista ou opinião disponíveis, ou por causa da falha destas pessoas em realmente pesquisar os fatos que você apresenta por causa da forte fé deles na cosmovisão ateísta?

Muito obrigado pelo seu tempo. Eu oro para que seu ministério continue sendo abençoado e que você continue a crescer em sua caminhada com Cristo.

Bençãos!

Cris


Resposta do Dr. Craig:

Buuuu! Pobres ateus! O Dr. Craig malvadão possui treinamento para debates, e é por isto que eles não conseguem sequer bolar uma resposta decente para os mesmos cinco argumentos que eu venho apresentando nos últimos 20 anos!

De verdade, Cris, ao mesmo tempo em que o treinamento (especialmente saber como lidar com o relógio) serve de grande ajuda para vencer um debate, isto por si só não é uma explicação suficiente para esta impotência ateísta em oferecer refutações para os argumentos que eu apresento – ou de ao menos apresentar um argumento para o próprio ateísmo deles. Tenha em mente que meus debates orais são na verdade uma parte relativamente minoritária do meu trabalho. A maior parte do meu trabalho consiste de trabalhos acadêmicos publicados e destacados por revistas profissionais, onde eu tenho respondido de perto a críticos como Mackie, Grünbaum, Smith, Oppy, Sobel, Morriston, etc. Alguns dos meus debates foram publicados com respostas críticas em forma monográfica, onde os comentaristas puderam escrever todas as suas críticas. Nestes casos lisuras e técnica retóricas se tornam irrelevantes. Estes livros incluem:

Does God Exist? [Deus Existe?] com Antony Flew. Comentários de K. Yandell, P. Moser, D. Geivett, M. Martin, D. Yandell, W. Rowe, K. Parsons, e Wm. Wainwright. Ed. Stan Wallace.
Aldershot: Ashgate, 2003.

God?: A Debate between a Christian and an Atheist. [Deus?: Um Debate entre um Cristão e um Ateu] Com Walter Sinnott-Armstrong. New York: Oxford University Press, 2003.

Is Goodness without God Good Enough? A Debate on Faith, Secularism, and Ethics. [A Bondade sem Deus é Boa Suficiente?] Com Paul Kurtz. Ed. Nathan King e Robert Garcia. Com comentários de Louise Antony, Walter Sinnott-Armstrong, John Hare, Donald Hubin, Stephen Layman, Mark Murphy, e Richard Swinburne. Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 2008.

Will the Real Jesus Please Stand Up? [O Jesus Real Vai Continuar de Pé?] Com John Dominic Crossan. Ed. Paul Copan com comentários de Robert Miller, Craig Blomberg, Marcus Borg, e Ben Witherington III. Grand Rapids, Mich.: Baker Bookhouse, 1998.

The Resurrection: Fact or Figment? [A Ressurreição: Fato ou Ficção?] Com Gerd Lüdemann. Ed. Paul Copan com comentários de Stephen T. Davis, Michael Goulder, Robert H. Gundry, e Roy Hoover. Downer’s Grove, Ill.: Inter-Varsity Press, 2000.

Eu convido qualquer pessoa a ler estes livros e verificar se meus argumentos continuam de pé ou não. Na verdade, eu gostaria que as pessoas lessem estes livros de fato! Eu fico incomodado com o fato de algumas pessoas parecerem me conhecer apenas por causa dos debates que eu participo – que na maioria das vezes são frustrantemente superficiais, uma vez que meus oponentes raramente levantarem boas objeções.

Em resposta às suas questões específicas:

1) Eu leio críticas acadêmicas dos meus trabalhos, mas eu tendo a ignorar materiais populares vindos da Internet, uma vez que, eu imagino, provavelmente os críticos da Internet não vão dizer nada substancial que os acadêmicos tenham deixado passar. (Esta impressão tem sido corroborada por algumas críticas populares que eu tenho lido).

2) Sobre o motivo de eles pensarem que os fatos que eu cito contradizem a ciência e a filosofia, eu diria que você está em uma posição melhor do que a minha para responder a esta questão, usando a razão simples.

3) Novamente, eu não posso especular em sua terceira questão. Eu diria simplesmente que quase tudo é passivo de debate: existem dois lados para toda questão. Eu nunca disse que o teísmo cristão é uma barbada – apenas que ele é mais plausivelmente verdadeiro do que falso.

Questão 2: Caro Dr. Craig,

Pessoalmente eu cético e sou convictamente ateu, mas eu admiro o que você faz e eu gosto bastante do que você escreve.

Esta não é uma questão relacionada à filosofia da religião. Ela é relacionada aos debates em particular. Luke Muehlauser do site Common Sense Atheism disse que as pessoas deveriam estudar suas técnicas de debate assim como os atores devem estudar Marlon Brando, e eu concordo plenamente com ele.

Aqui estão minhas questões:

1) Alguma vez você já considerou lançar um manual com instruções sobre as complexidades e os aspectos mais técnicos de um debate profissional?

2) Você realmente acha que o debate é uma forma efetiva de diálogo, ou você vê isto como um tipo de teste acadêmico de vontades?

3) A quanto tempo você participa de debates?

4) Que tipo de livros, artigos e manuais você poderia recomendar para um debatedor profissional se ele ou ela desejar melhorar suas habilidades?

5) Na sua opinião qual foi seu oponente mais difícil e desafiador em um debate (não precisa ter sido um debate sobre religião especificamente, pode ter sido sobre qualquer tópico que você já tenha debatido)? Poderia nos dar uma lista top five?

6) Esta última questão é um pouco diferente do assunto, mas lá vai. Levantaram recentemente, com os principais filósofos e cientistas, a seguinte pergunta, “Sobre que assunto você já mudou de opinião?”. Eu gostaria de colocar a mesma pergunta para você. Durante sua vida cristã, sobre quais questões você já mudou de posicionamento?

Atenciosamente,

Rhys


Resposta do Dr. Craig:

É bom ouvir novamente de você, Rhys! Em resposta às suas perguntas:

1) Eu não tenho planos de publicar um livro sobre a arte de debater, mas eu ocasionalmente ministro um curso sobre isto no Talbot. Eu até mesmo uso alguns dos materiais do Luke na classe!

2) Eu acho que ambos. Eu já disse que eu acho que o debate é um tipo equivalente ocidental para o que os mitologistas chamam de “encontro de poderes” entre as deidades pagãs locais e o Deus da Bíblia. Mas eu acho que as gravações e as transcrições dos debates, vistas e estudadas em revisão, são muito estimulantes e educacionais. Eu certamente aprendi bastante enquanto me preparava para os debates que participei.

3) Quando eu estava na oitava série minha irmã mais velha, Tami, e eu costumávamos a discutir o tempo todo. Um dia ela disse irritada, “Tudo o que você quer é debater! Você deveria se juntar ao time de debate da escola!”. “O que é isto?”, eu perguntei. Ela me explicou sobre o time de debate do ensino médio na East Peoria Community High School (que era, a propósito, muito bom, tendo até vencido o campeonato estadual daquele ano). Assim, quando eu me tornei calouro no ano seguinte logo me juntei ao time e comecei a debater. Isto foi em 1964. Quando me graduei no Wheaton College em 1971 eu pensava que meus dias de debates haviam terminado. Mas em 1982, com meu diploma de doutorado me suportando, eu recebi um convite de um grupo cristão canadense para debater com o filósofo ateu Kai Nielsen na University of Calgary. O que eu descobri é que enquanto algumas poucas pessoas virão ouvir uma palestra no campus, centenas ou até mesmo milhares de estudantes virão para ver um debate. Desta forma eu descobri, para minha alegria, que o debate é um grande fórum para defesa da cosmovisão cristã em campi universitários.

4) Na verdade não existem livros que eu conheça sobre a minha forma de debater, porque a maioria dos livros sobre debate são sobre debates políticos, não sobre as técnicas de debate em si. Este foi um dos desafios que tive quando comecei a ensinar na minha classe no Talbot. O que sugerir a eles como leitura? Não há muita coisa disponível.

5) A alguns anos atrás eu estava frustrado com o nível dos oponentes com os quais eu estava debatendo e comecei a imaginar, “Como eu vou me portar se eu encarar alguém que seja bom filósofo e bom debatedor?”. Eu estava louco por um bom oponente. Eu não tive que esperar muito para descobrir. Fui convidado para um debate com um professor de filosofia chamado Doug Jesseph na Universidade da Carolina do Norte sobre a questão “Deus Existe?”. Enquanto ele discursava eu pensei comigo, “Uau, este cara é mesmo bom!”. Este foi um debate incrível. Após cada discurso que era dito parecia que a vantagem passava de um lado para o outro. Em nenhum momento antes das respostas finais eu senti que estava na frente. Após o debate, quando nos cumprimentamos, eu disse a ele, “Você é realmente um bom debatedor” e ele respondeu, “Obrigado. Eu participava do time de debate da escola.” Este foi o melhor debate que eu já tive, e a transcrição deste debate está disponível em nosso website.

6) Sobre muitas coisas. Quando eu escrevi The Kalam Cosmological Argument [O Argumento Cosmológico Kalam] (1979) eu acreditava que Deus era simplesmente um ser factualmente necessário (como Swinburne acredita). Eu também acreditava que o argumento ontológico não tinha valor algum. Os escritos de Plantinga me convenceram do contrário. O argumento cosmológico de Leibniz também não me convencia, até que eu vi a formulação de Stephen Davis deste argumento. Eu nunca tinha ouvido falar sobre conhecimento do meio, e, quando me familiarizei com ele, fiquei incerto sobre ele até David Basinger me convencer de sua validade. Mais recentemente, eu tenho sido progressivamente atraído, ao contrario de minhas predisposições anteriores, para a visão nominalista dos chamados “objetos abstratos” como números, proposições, propriedades, etc. Assim as pessoas estão sempre aprendendo e, tomara, melhorando.

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