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Os Ateus Perderam a Cabeça?

Tradução: Eliel Vieira

Questão 1:

Caro Professor Craig,

Eu sou um ateu que admira seus debates e argumentos, mas tenho observado uma tendência no meu lado da discussão sobre a qual eu gostaria de lhe perguntar.

Me parece que os ateus populares de hoje em dia, como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Christopher Hitchens e Sam Harris, não aprensentam argumentos sólidos (ou ao menos válidos) da forma como um filósofo como você (ou um filósofo em treinamento como eu) gostaria de ver. Eu sei que estes argumentos existiam com os ateus no passado (como Mackey, Russell e Hume), mas eu não sei porque os ateus populares (ou outros ateus em geral) atualmente não empregam tal argumentação em debates recentes.

Alguém poderia dizer que os ateus populares de hoje em dia simplesmente não têm o treinamento filosófico para ser como elaborar argumentos válidos e sólidos, mas isto é falso, uma vez que Dennett é um filósofo. No caso de Dennett, ele se recusa a abordar os argumentos tradicionais contra e a favor da existência de Deus e simplesmente se interessa nos mecanismos evolucionários por trás da crença religiosa.

Eu reconheço que existem ateus filosoficamente sofisticados atualmente (Quentin Smith, que você conhece, é um exemplo), mas por que eles não estão nos holofotes?

Com sua experiência em debates e discussões, o que você atribui como causa disto? Eu não acho que a posição ateísta é implausível (mesmo que ela possa ser falsa), então eu não espero que você afirme que o ateísmo está falido. Mas se você não responder assim, qual pode ser a causa para isto?

Sinceramente,

Arash

Questão 2:

Eu tenho praticado apologetica cristã na internet pelos últimos dez anos. Eu tenho o grau de Mestre pela Perkins School of Theology e eu estava me doutorando em História de Ideias, mas fui forçado a abandonar meus estudos devido a uma tragédia familiar.

Eu também já hospedei vários fóruns de discussão e tenho feito isto desde 1999. Eu tenho ficado cada vez mais frustrado e irritado com a natureza da mentalidade ateísta nestes fóruns. Não era como é hoje quando eu descobri estes fóruns pela primeira vez. Era até divertido antes. Eu extraía o melhor deles em toda discussão. Eles gostavam de mim e apreciavam meu conhecimento e o que eu tinha aprendido.

Isto não é sobre mim. Eu não faço isto para vencer argumentos. Mas isto é uma medida sobre como as coisas mudaram. Atualmente eu sou considerado um total idiota na rede. Isto não é porque meus argumentos de repente se tornaram ruins, é porque os ateus perceberam que eles podiam parar de debater as questões e começassem a debater sobre mim. Agora todo o processo de postar em fóruns está fechado para mim. Eu não posso ir a nenhum fórum de discussão sem que os ateus comessem a me ridicularizar. Eles se recusam a ouvir os argumentos. Eles tentam encontrar qualquer tipo de linha fora da costura em cada frase que eu digo.

Como um membro da comunidade apologética na rede, eu estou muito preocupado com isto. Essencialmente os fóruns virtuais deixaram de ser uma ferramenta para apologética ou evangelismo. Os ateus demonstram mais e mais ódio com o passar do tempo. No próprio fórum do seu site hoje um ateu ridicularizou tudo o que eu disse, embora ele não tenha entendido nenhuma palavra do que foi dito, e então ele anunciou que os cristãos não são dignos de respeito.

Eu acredito que a comunidade de apologistas na rede precisa se unir se quiser mudar este quadro. Precisamos começar a banir pessoas que insultarem a fé cristã. Como qualquer fanfarrão, eles sempre se conterão se nós nos posicionarmos em relação ao que estão fazendo. Eles se tornam mais abusivos se você tentar ser gentil com eles.

Eu acredito que nós devemos começar a aplicar vigorosamente regras que proíbam que eles caluniem os cristãos e nossa fé. Quase todos os fóruns têm regras que proíbem o abuso, mas nenhum aplica estas regras contra as poucas atitudes caluniosas dos ateus. Nós precisamos começar a fazer isto. Nós não estaremos perdendo nada se expulsarmos algumas pessoas pelo fato delas fazerem o Evangelho parecer motivo de chacota aos demais.

Eu espero que você considere o que eu disse. Eu também estou aberto a sugestões sobre como proceder.

Sinceramente, em Cristo,

Joe


Resposta do Dr. Craig:

Eu fiquei fascinado com a concordância destas duas cartas, uma de um ateu e outra de um cristão, sobre o tom grosseiro que predomina entre o nível popular dos ateus atualmente. Eu compartilho estas cartas pelo seu interesse intrínseco e não por ter algum insight especial que eu possa oferecer sobre as razões desta mudança.

Eu concordo com você, Arash, que o ateísmo não é uma cosmovisão implausível e que, portanto, a pobreza da argumentação ateísta não pode ser devida à falência do próprio ateísmo. Com minha experiência, esta pobreza parece ser devida à simples ignorância da literatura.

Os acadêmicos tendem a concentrar seus esforços em suas respectivas áreas de especialização e a permanecer ignorantes em relação a assuntos – especialmente em assuntos nos quais eles tem pouco interesse – que estão fora de seus campos escolhidos. Quando eles vão comentar sobre tópicos fora de suas áreas de especialização, as opiniões de grandes cientistas, filósofos e outros acadêmicos não carregam mais peso do que o que algum leigo diz – na verdade, nestes assuntos eles próprios são leigos. Como resultado de debates com pesquisadores não-teístas ao longo dos anos, eu tenho ficado impressionado com a incrível ignorância que alguns estudiosos brilhantes têm em relação à teologia e filosofia da religião.

Permita-me dar alguns exemplos. Meu amigo Quentin Smith, que você mencionou, alguns anos atrás, sem rodeios, taxou o argumento de Stephen Hawking contra Deus em Uma Breve História do Tempo como “o pior argumento ateísta na história do pensamento ocidental.”[1] Com a publicação do “argumento central” de Richard Dawkins em seu livro Deus, um delírio, que eu já critiquei em outro lugar, chegou o tempo, eu acho, de aliviar Hawking deste peso e reconhecer o acesso de Dawkins ao trono. Alguns anos atrás eu ouvi uma palestra do físico vencedor do Prêmio Nobel Steven Weinberg na conferência The Nature of Nature na Baylor University. Eu fiquei chocado em ouvir pouco mais do que o discurso irado de um ateu tribal. Mesmo filósofos que não estão especializados em filosofia da religião podem perder o rumo quando falam fora de sua área de especialização em filosofia. Uma vez que você mencionou Dennett, dê uma olhada na conversa que eu tive com ele no New Orleans Baptist Theological Seminary, na conferência sobre ateísmo, em 2007. Suas objeções aos argumentos teístas tradicionais eram como aqueles que você encontraria em um trabalho de graduação. Quando finalizei minha crítica, ele subiu ao pódio, fez uma pausa e então declarou, “Isto foi uma tour de force!”[2] (Na verdade, aquilo era elementar.) Assim, qual foi sua resposta? Ele basicamente disse, “Eu acho que isto mostra que se você pode inferir uma conclusão implausível a partir de um conjunto de premissas plausíveis, então você precisa apenas voltar um pouco e negar algumas destas premissas!”

Agora, se finos acadêmicos como estes estão em um nível tão raso no que se refere à filosofia da religião, imagine a situação dos popularizadores como Harris, Hitchens e semelhantes! O mesmo ocorre, Joe, em relação aos ateus que você encontra em fóruns virtuais. Você precisa ter em mente que muitos destas ateus são apenas adolescentes revoltados que não possuem treinamento acadêmico nos assuntos que eles confiadamente falam. Na falta dos meios intelectuais para debater estas questões, o único recurso deles é o ridículo e o sarcasmo.

O que estes popularizadores não entendem é que se eles lerem trabalhos de estudiosos não-teístas que têm trabalho em filosofia da religião, eles irão perceber que estes estudiosos não tratam o teísmo com desrespeito, nem tratam os cristãos com escárnio. Se você ler um livro como o brilhante Arguing about Gods, de Graham Oppy, por exemplo, no qual ele trabalha toda objeção concebível contra os argumentos teístas, o que você talvez não vai perceber é que no fim das contas Oppy está argumentando que não existem argumentos racionais coercivos para a existência de Deus (uma tese que a maioria dos filósofos cristãos provavelmente vai concordar!), mas também, da mesma forma, que não existem argumentos racionais coercivos contra a existência de Deus, de modo que os teístas podem estar em sua posição racional em acreditar, como o fazem. Poucas pessoas conhecidas pensariam que o desdém e a condescendência destes popularizadores em relação ao teísmo em geral, e aos cristãos em particular, é justificado.

Agora, como um filósofo cristão, eu estou apenas sentindo cócegas com esta mudança dos eventos. Lá pelos anos 30’ e 40’, durante os negros dias da fuga fundamentalista da academia, a multidão do livre-pensamento talvez estivesse justificada em virar a cara para a subcultura cristã. Eles podiam postular a si mesmos como os campeões da racionalidade e tratar os cristãos como intelectuais de segunda categoria. Agora, em contraste, a subcultura do pensamento-livre se encontra perdendo a disputa intelectual. Ela está ultrapassada com relação ao trabalho filosófico nos argumentos para a existência de Deus, fora de sintonia com o florescente diálogo entre ciência e religião que acontece atualmente, presa na velha metáfora de guerra de Andrew Dickson White, e mergulhada no criticismo bíblico do século XIX e no entendimento interpretativo mitológico sobre o Jesus histórico. Eu estou positivamente exultante sobre como a paisagem mudou!

É claro, como você reclamou, Joe, que podemos encarar arrogância e condescendência de pessoas que algumas vezes são invencivelmente ignorantes. Mas, o que você espera, então? Gaste algum tempo para meditar nos capítulos iniciais de I Coríntios. Veja quantas vezes Paulo usa as palavras “insensato” ou “louco”. Paulo diz que a mensagem do Evangelho é loucura para o mundo secular, que o homem natural sem o Espírito de Deus considera as coisas espirituais como loucura, que “Se alguém dentre vós se tem por sábio neste mundo, faça-se louco para se tornar sábio.” (I Co 3:18). Para seus detratores que o ofenderam, Paulo escreve, “Nós somos loucos por amor de Cristo” (I Co 4:10). Eu estou convencido que uma pessoa não estará pronta para ser usada completamente por Deus até que ela esteja disposta a engolir seu orgulho e esteja disposta a ser considerada louca pelo amor a Cristo.

É claro que não é necessário dizer que não nós não devemos ser todos ou segunda categoria em nossa academia. Devemos buscar a excelência e aceitar o chamado de Charles Malik de desafiar a academia secular em seus próprios termos. Nós devemos ser intelectualmente hábeis, estarmos aberto às suas críticas e estarmos prontos para aprender com elas. Nós podemos eventualmente cometer erros e precisarmos revisar ou abandonar nosso argumento. Mas no fim nós precisamos estar preparados para ser ridicularizados como tolos pelo amor a Cristo.

Certamente machuca quando as pessoas não apreciam você ou seu trabalho. Mas aqui nós podemos encontrar encorajamento nas palavras de Jesus, “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.” (Mt 5:11-12). Você realmente acredita nisto, Joe? Então se alegre! Não devemos ficar lamentando por nós mesmos, mas estarmos felizes de termos a honra de carregar o mesmo opróbrio que caiu sobre o Senhor.

Ao invés de nos enfurecermos com aqueles que nos ridicularizem, nós precisamos considerar a causa disto e sentir compaixão por estas almas perdidas. Estou me lembrando de uma frase que ouvi certa vez: “Eu não poderia sentir mais raiva dele do que sentiria por um cego que pisou no meu pé.”

Seu ponto sobre a ineficácia do evangelismo em fóruns virtuais é uma preocupação prática que aqueles que gastam tempo em tais fóruns precisam avaliar com seriedade. Nosso fórum no Reasonable Faith não tem o objetivo primário de servir como ferramenta de evangelismo, mas promover discussão sobre questões importantes entre qualquer pessoa que quiser participar. Minha esperança é que os cristãos se aprofundem no conhecimento da veracidade da fé cristã através de tais discussões.

Tenha em mente, também, que centenas de pessoas estão lendo sua discussão com algum ateu recalcitrante, e observando como você responde a ele. Assim como ocorre em meus debates, nem sempre o objetivo de tal discussão é convencer meu oponente, mas convencer aqueles na audiência que têm mente aberta. A sordidez e a mente fechada do seu interlocutor, em contraste com seu espírito de tolerância, podem na verdade ser um benefício para o seu caso.

Eu concordo plenamente com você em relação à necessidade de civilidade. É por isto que eu insisto em descrever nosso fórum como “discussões pacíficas e substâncivas de questões”. Mas eu não vou banir pessoas que não têm educação e maturidade. Eu simplesmente vou concordar com Chris Weaver quando ele nos adverte a simplesmente não responder tais pessoas. Vamos deixar que seus comentários sejam ignorados até que eles aprendam a como eles tratar aqueles com os quais discordam com tolerância e respeito.

Notas
[1] Quentin Smith, “The Wave Function of a Godless Universe,” in Theism, Atheism, and Big Bang Cosmology (Oxford: Clarendon Press, 1993), 322.
[2] tour de force é uma locução substantiva de origem francesa que significa grande esforço, proeza, façanha. Por extensão do significado, quer dizer: ação difícil executada com grande habilidade.

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