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A Aposta de Pascal e a Crença em Deus

Tradução: Eliel Vieira

Dr. Craig,

Minha questão é sobre muito difamada Aposta de Pascal. Enquanto lia a sessão Epistemologia da Religião do livro Filosofia e Cosmovisão Cristã, eu me lembrei da objeção de Christopher Hitchens para a Aposta. Sua objeção é que mesmo que a Aposta fosse válida, não se pode simplesmente acreditar em algo à força. Se uma pessoa não enxerga evidências para a existência de Deus, ela não pode forçar a si mesma a “simplesmente acreditar” nisto por causa dos seus benefícios. Além disto, Hitchens diz que Deus certamente seria capaz de identificar aqueles que forçaram a crença por causa dos benefícios e aqueles que verdadeiramente acreditaram com base na revelação, evidência, etc…

Minha questão é como você responderia a isto. Talvez o Sr. Hitchens esteja confundindo a garantia pragmática dependente da crença em Deus com a garantia pragmática independente da crença em Deus?

Também gostaria de aproveitar esta oportunidade e lhe agradecer pelo seu trabalho e expressar o quanto eu tenho sido beneficiado pessoalmente por sua vida e pelos seus escritos. Vou começar o Ensino Médio em breve e desde que comecei ouvir seus podcasts tenho sido inspirado a estudar filosofia e tenho pensando no futuro em me graduar no Talbot School of Theology e posteriormente em Oxford, para outra gradução em filosofia. Queria que soubesse que o faz gera impacto em pessoas de todas as idades e eu espero ver você no Talbot dentro de cinco anos!

Obrigado novamente e que Deus abençoe você e seu ministério.

nEle,

Jonathan

P.S. Se a Aposta de Pascal for levantada em seu debate com Hitchens em Abril, pode ter certeza que ele vai levantar esta objeção!


Resposta do Dr. Craig

Jonathan, eu estou muito entusiasmado com as espectativas que você tem para sua vida! Boa sorte com seus estudos!

Para aqueles que não estão familiarizados com a famosa Aposta de Blaise Pascal, deixe-me explicar que Pascal argumentou, com efeito, que se nos encontrarmos em uma situação de incerteza em relação à existência de Deus, então mesmo na ausência de qualquer garantia, a crença em Deus é pragmaticamente justificada porque não temos nada a perder e tudo a ganhar tendo esta crença. Uma das objeções à Aposta de Pascal é a afirmação de Hitchens de que a crença em Deus não está em nosso controle e, portanto, não podemos simplesmente forçarmos a crer como a Aposta exige.

O próprio Pascal conhecia esta objeção e a abordou de forma explícita. A objeção não é de natureza filosófica, mas psicológica. Portanto, Pascal propõe um remédio psicológico. Seu parceiro imaginário de conversa protesta, “Sim, mas tenho as mãos atadas e os lábios cosidos. Obrigam-me a apostar, tiram-me toda a liberdade. Não dão trégua, e sou feito de tal maneira que não posso crer. Que quereis então que eu faça?”

Ao que Pascal respondeu:

É verdade. Mas compreendei, ao menos, a vossa incapacidade de crer, visto que a razão vos inclina a isso, e no entanto não o podeis. Esforçai-vos, pois, não para vos convercerdes pela argumentação das provas de Deus, mas pelo domínio sobre as vossas paixões. Quereis chegar à fé e não conheceis o caminho; quereis curar-vos da descrença e perguntais qual é o remédio: aprendei-o com os que estavam amarrados como vós e que agora apostam todo o seu bem. São pessoas que conhecem esse caminho que desejaríeis seguir e que se curaram de um mal de que vos quereis curar. Imitai a maneira pela qual começaram: foi procurando exatamente como se cressem, usando água benta, mandando rezar missas, etc. Naturalmente isto vos fará crer e vos embrutecerá. – “Mas é justamente o que eu temo.” – Por que? Que tendes a perder? (Pensées # 233)

O conselho de Pascal para a pessoa que quer acreditar, mas que não consegue fazê-lo é que esta pessoa frequente uma comunidade religiosa e tome parte nas atividades espirituais que os demais crentes praticam. Eventualmente a fé virá. Este é um conselho válido. O que Pascal entendeu é que o comportamento influência a crença de forma poderosa. Eu aconselharia uma pessoa assim a orar regurlarmente (sim, orar ao Deus cuja existência ela ainda tem dúvidas), a ler sua Bíblia e meditar nela, a frequentar uma igreja na qual o Evangelho é proclamado e se unir a um pequeno grupo de cristãos onde ele possa experimentar amizade e interação.

Tal pessoa não pode ser considerara antipática por ter tal agenda egoísta. Mesmo que inicialmente motivada pelos benefícios pragmáticos descritos na Aposta, a pessoa que busca e finalmente encontra Deus virá a ter uma fé genuína e salvadora em relação ao Deus que ela adora. Claro, se sua fé for apenas uma simulação, então, como Hitchens corretamente observa, Deus irá saber de sua hipocrisia e não será enganado por ela.

Eu duvido que estes pontos serão levantados no nosso debate do dia 4 de Abril uma vez que eu geralmente não apelo para a Aposta de Pascal por estar convencido, diferentemente de Pascal, do valor da teologia natural (os argumentos para a existência de Deus).

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