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O Argumento Ateísta de Richard Dawkins em “Deus, um delírio”

Tradução: Leandro Teixeira

O que o Sr. pensa sobre o argumento ateísta de Richard Dawkins em seu livro “Deus, um delírio”?


Resposta do Dr. Craig:

Nas páginas 212 e 213 do livro dele, Dawkins resume o que ele chama de “o argumento central de meu livro.” Assim segue:

1. Um dos maiores desafios para o intelecto humano foi explicar como o complexo e improvável aparecimento do design surgiu no universo.
2. A tentação natural é atribuir o aparecimento do design a um design verdadeiro.
3. A tentação é uma falsidade porque a hipótese do projetista remete imediatamente ao problema maior de quem projetou o projetista.
4. A explicação mais engenhosa e poderosa é evolução de Darwin através de seleção natural.
5. Nós não temos uma explicação equivalente para a física.
6. Nós não deveríamos renunciar a esperança de uma explicação melhor que surja na física, algo tão poderoso quanto o Darwinismo é para biologia. Então, Deus não existe quase certamente.

Este argumento soa mal porque a conclusão ateísta que “Então, Deus não existe quase certamente” parece sair de repente do nada. O senhor não precisa ser um filósofo para perceber que esta conclusão não pode ser deduzida das seis afirmações anteriores.
Realmente, se nós levarmos estas seis afirmações como premissas de um argumento que implique na conclusão “Então, Deus não existe quase certamente”, então o argumento é patentemente inválido. Nenhum regulamento lógico de inferência permitiria ao senhor tirar esta conclusão das seis premissas.

Uma interpretação mais gentil seria levar estas seis afirmações, não como premissas, mas como afirmações sumárias de seis passos no argumento cumulativo de Dawkins para a sua conclusão que Deus não existe. Mas até mesmo nesta construção gentil, a conclusão “Então, Deus não existe quase certamente” não decorre destes seis passos, até mesmo se nós aceitarmos que cada um deles é verdadeiro e justificado.

O que se pode concluir dos seis passos do argumento de Dawkins? No máximo, tudo o que aquilo sugere é que nós não deveríamos deduzir a existência de Deus baseados no aparecimento do design no universo. Mas esta conclusão é bastante compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa justificável crença na existência de Deus. Talvez nós deveríamos acreditar em Deus com base no argumento cosmológico ou no argumento ontológico ou no argumento moral. Talvez nossa convicção em Deus não esteja baseada em argumentos, mas fundamentada em experiência religiosa ou em revelação divina. Talvez Deus quer que nós acreditemos nEle simplesmente através da fé. O ponto é que rejeitando argumentos de design para a existência de Deus não faz nada que provar aquele Deus não exista ou até mesmo aquela convicção em Deus é injustificada. Realmente, muitos teólogos cristãos rejeitaram argumentos para a existência de Deus sem se obrigar assim ao ateísmo. Assim o argumento de Dawkins para o ateísmo é até mesmo um fracasso se nós aceitarmos, como hipótese, todos seus passos. Mas, na realidade, vários destes passos são plausivelmente falsos. Dê só o passo (3), por exemplo. A reinvindicação de Dawkins aqui é que não é justificável deduzir o design como a melhor explicação da ordem complexa do universo porque então um problema novo surge: quem projetou o projetista?

Esta réplica é dividida em pelo menos duas partes. Primeiro, para reconhecer uma explicação como a melhor, não é necessário ter uma explicação da explicação. Este é um ponto elementar relativo a inferência para a melhor explicação como praticado na filosofia de ciência. Se arqueólogos que cavam na terra fossem descobrir coisas que se parecem com pontas da flecha e cabeças de machadinhas e fragmentos de cerâmica, eles seriam justificados deduzindo que estes artefatos não são o resultado de uma possibilidade de sedimentação e metamorfose, mas produtos de algum grupo desconhecido de pessoas, embora eles tivessem nenhuma explicação de quem estas pessoas eram ou de onde elas vieram. Semelhantemente, se os astronautas fossem encontrar uma pilha de maquinários na parte de trás da lua, eles seriam justificados deduzindo que era o produto de agentes inteligentes, extra-terrestres, até mesmo se eles não tivessem nenhuma idéia do que estes agentes extra-terrestres eram ou como eles chegaram lá. Para reconhecer uma explicação como a melhor, não é necessário poder explicar a explicação. Na realidade, requerendo assim conduziria a um infinito regresso de explicações, de forma que nada já poderia ser explicado e ciência seria destruída. Assim, neste caso, para reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação do aparecimento de design no universo, não é preciso explicar o projetista.

Secundariamente, Dawkins pensa que no caso do projetista divino do universo, é o projetista da mesma maneira complexo como a coisa a ser explicada, de forma que nenhum avanço explicativo é feito. Esta objeção dispara todas tipo de perguntas sobre o papel da simplicidade avaliando explicações competitivas; por exemplo, como a simplicidade é equilibrada comparado com outros critérios tais como o poder explicativo, escopo explicativo, e assim sucessivamente. Mas deixa essas perguntas a parte. O engano fundamental de Dawkins mente na sua suposição de que um projetista divino é uma entidade comparável em complexidade com o universo. Como uma mente sem corpo, Deus é uma entidade notavelmente simples. Como uma entidade não-física, uma mente não está composta de partes e suas propriedades salientes, como autoconsciência, racionalidade e volição, são essenciais a ela. Em contraste com o universo contingente e matizado com todas suas quantidades inexplicáveis e constantes, uma mente divina é de modo surpreendente simples. Certamente tal mente pode ter idéias complexas – pode estar pensando, por exemplo, em cálculo infinitesimal, mas a própria mente é uma entidade notavelmente simples. Dawkins confundiu evidentemente as idéias de uma mente que pode, realmente, serem complexas, com uma mente, a qual é uma entidade inacreditavelmente simples. Então, postulando uma mente divina atrás do universo representa um avanço em simplicidade, para tudo que vale.

Outros passos no argumento de Dawkins também são problemáticos; mas eu penso que bastante foi dito para mostrar que o argumento dele não faz nada para arruinar uma inferência do design fundada na complexidade do universo, não servindo em nada como uma justificação do ateísmo.

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  1. maio 1, 2011 às 10:21 pm

    Leandro Teixeira, Certamente o Dr. Craig supõe que destroçou os argumentos de Richard Dawkins constantes do livro Deus, Um Delírio; mas ele não conseguiu. Ainda que um trecho ou outro da obra contenha alguma vulnerabilidade dialética, na totalidade do livro há argumentos muito fortes sobre a inexistência de Deus. Ademais, os argumentos do Dr. Craig, calcados sobretudo nas tradicionais provas de Deus – a ontológica, a cosmológica e a físico-teológica – também não se sustentam, exceto pela fé. Mas crença não é argumento. Por fim, as idiossincrasias, o autoengano ou suas compulsões não permitem ao Dr. Craig – tal como ocorre com todos os crentes – entender que Deus é um ser antropomorfo, criado por nós mesmos. Já os livros santos não passam de mitologias, lendas e fábulas milenares que vieram sendo recriadas e recontadas; primeiro de forma oral, despois escritas sobre pedras, tábuas, couros, folhas. E as religiões não passam de superstições mais elaboradas, mas que se perpetuaram graças aos costumes, tradições, educação, doutrinação e conveniências de poder e dinheiro.

  2. outubro 12, 2011 às 8:48 pm

    Dr. Craig, serei bem objetivo neste meu comentário. Para um argumento um tanto mais convincente, não somente neste assunto a ser abordado como tantos outros, é necessário olhar igualmente para os dois lados do assunto. Sentir-se na pele daquele que elaborou tal ideologia responderá meia pergunta, se tal resposta é a correta. Verificar o porque de Richard Dawkins ter escrito isso, olhar realmente no que ele tropeçou. Se ele realmente acreditava nisso, o porque dele acreditar. Talvez a resposta certa para uma pergunta como esta é entender o que levou o argumentante oposto a chegar a tal conclusão. Queremos verdade e não consolo.

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